sábado, 31 de janeiro de 2015

Selfie - o Show do eu.


              “Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano, e é solitário” Clarice Lispector







Frederico Clapis é um comediante italiano que anda fazendo sucesso com seus vídeos cômicos sobre a arte de fazer uma selfie. Intitulados " a verdade por trás de uma selfie" apresentam-se diversas situações sobre o que estaria ocorrendo no momento em que se captura a imagem.

Entre caras e bocas a parceira de cena do comediante murmura "seeeelfieeee" e, esteja o que se estiver fazendo ou sentindo, tudo se congela. E se torna uma alegre performance. Ou não?


 A palavra "selfie" tornou-se a palavra do ano em 2013 segundo o prestigiado dicionário Oxford. E ganhou um aliado poderoso  - o pau de selfie. Agora, a vareta metálica substitui o incômodo de ter que pedir a um estranho para tirar as fotos.  Melhor ainda: quem tira a foto também participa dela. É o fim do ostracismo! O "coleguinha" que tirou a foto não precisa pedir para outro "coleguinha" substituí-lo. Saímos todos felizes e inclusos em um momento inesquecível.


A profusão de imagens de "nós mesmos", levou Paula Sibilia a pesquisar e desvendar as subjetividades provocadas pelas novas tecnologias. Ela, uma argentina radicada brasileira, se pergunta até que ponto estamos transformando nossas vidas em performances.

Quadrinho cômico sobre os perfis.

Segundo Sibilia, "performance" é um termo vasto, porém, podemos resumir em " uma encenação - teatro, música, fotografia, ou qualquer espécie de arte - em que há uma platéia para vivenciar a experiência." Podemos, facilmente, realizar um comparação com as redes sociais. A timeline do facebook virou a linha de nossas vidas. Nós a editamos e escolhemos os melhores lances e aguardamos os aplausos em forma de "curtidas".  (Ouvi dizer por aí que a falta de "curtidas" gera até depressão...Será verdade?)   

Mas, será que o que vemos ou postamos nas timelines é falso? 
Ouso considerar que é, sim, verdadeiro. Ou, pelo menos, parte da realidade. 

Nós, como seres humanos, somos múltiplos. Variamos entre "personas", "máscaras" do ser. Não significa dizer que essas personas são falsas. Apenas partes de nós mesmos. 
Naturalmente já escolhemos nossas máscaras no dia a dia. Continuamos fazendo isso através das redes sociais.

Segundo as empresas de análises de pesquisa, como o ComScore e Shareablee, as redes sociais fazem sucesso no Brasil. Portanto, podemos concluir que nós, brasileiros, adoramos uma boa performance.

Dentro deste contexto é interessante pensar que em tempos idos - entre a aristocracia européia - "exibir-se" ou "mostrar as suas qualidades" era considerado uma falta grave de decoro. Era preciso esconder tais qualidades para não ofender seus companheiros. 

Ao ler o livro "1808" de Laurentino Gomes, é possível perceber que a nobreza brasileira já não se encaixava nessa ideia. Os europeus consideravam a nobreza brasileira perdulária e exibicionista, já que faziam questão de receber seus convivas com banquetes regados a ouro. 

Seja como for, nossas vidas estão invariavelmente marcadas pelo tecnológico.
As extensões do eu são, agora, bem mais vastas do que antes.

FONTES: AUTENTICIDADE E PERFORMANCE - A CONSTRUÇÃO DE SI COMO PERSONAGEM VIÁVEL de Paula Sibila. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Na guerrilha das marcas, use o escudo simbólico.


Não subestime o poder da comunicação.

Recentemente, falamos sobre os neologismos ligados à propaganda e o fenômeno da "experiência". O termo refere-se aos valores intangíveis agregados a uma marca e que, portanto, aumentariam o seu valor de consumo. 

Kolynos: teve gente que ao saber que a
linha ia ser descontinuada decidiu
fazer um estoque da marca para o
"resto da vida."
Trouxemos o tema à baila porque ele reflete uma importante mudança nos cenários de consumo e acenam para uma prática muito posterior a 2014. 
Sim, não é algo novo. E, embora tenhamos convocado um famoso chef para sair "gourmetizando" tudo por aí, a verdade é que o campo de batalha das marcas anda cada vez mais acirrado.

O cenário atual tem se caracterizado por uma imensa pulverização de marcas - de todos os tipos, para todos os públicos - e ao consumidor o poder de escolha é maior. Diante de tanta concorrência, caberá a ele decidir sobre o quê, como, quando e onde pagar. O poder de escolha é imenso: podemos acessar uma das muitas lojas virtuais, podemos visitar um dos muitos shoppings ou mesmo, escolher entre as lojinhas do bairro. 

E não se engane, a "lojinha do bairro" não apenas compete com as outras lojas do mesmo bairro, mas com lojas de outras partes do mundo. 
Exagero? É o poder da fusão das tecnologias. E espere por cada vez mais. É imprevisível sabermos até onde as novas tecnologias nos levarão, o que sabemos é que tudo muda, constantemente.

Diante de um cenário mutante e heterogêneo como garantir a longevidade de um negócio? 

APOSTANDO NA IDENTIDADE DE SUA MARCA. 

Uma marca pode ser diferenciada das demais através de seus benefícios racionais ou emocionais.
Exemplificando: posso vender um carro por sua potência - um atributo funcional - ou pelo
Tem gente que quer o Chocolate Surpresa de volta.
Iniciativa do Portal Administradores.
Tem até evento fake no facebook para isso.
status que ele trará ao dono - conteúdo emocional.

Quando falamos sobre o processo de "gourmetização" ou o fato de muitas marcas apostarem na experiência para alardearem seu potencial simbólico é que, cada vez mais, os produtos se assemelham em benefícios funcionais. Afinal, desde a Era da Revolução Industrial notamos uma notável democratização tecnológica. 

Assim, explica-se a grande leva de "experiências" vividas com a presença das marcas. A marca torna-se não apenas algo que diferencia um produto, mas um símbolo que caracteriza o consumidor, ainda que ele se distancie da característica que admira. E, portanto, pensemos na marca como algo também mutável. 
Pensar assim, é acompanhar o ritmo de uma sociedade que valoriza o individual, a imagem. 

A marca sofre um processo de personificação e estabelece uma relação profunda com seu consumidor. É fácil perceber esse fenômeno! Quantas fanpages existem para relembrar um marca querida? 

É a marca que o consumidor conhece e se relaciona. Não o empresário. Ou os empresários. Ou ainda, a fábrica. 
No entanto, é importante pensar que, nos dias de hoje tudo é comunicação. 

Desde o espaço físico de sua loja/empresa passando pelo material de divulgação até os funcionários. Lembre-se: uma identidade de marca é mutável, portanto, cuide bem para estudar seu público. E, principalmente, ouvi-lo.


FONTE:
"Comunicação como fator estratégico da empresa" in Revista ESPM.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O Raio Gourmetizador ataca as redações publicitárias!



 "(...) o luxo "estilhaçou-se", não há mais um luxo, mas luxos, em vários graus, para públicos diversos." Giles Lipovetisky

A frase de Lipovetisky, filósofo francês reconhecido na área de comunicação por seus estudos sobre o luxo, encaixa-se bem na nova onda que parece engolfar as redações publicitárias: a venda de "experiências".

O tema, foi tratado na revista " O Globo", de dezembro de 2014 sob o título " 2014, o ano da ' experiência'." Segundo a matéria o termo "experiência" passou por uma reformulação de sentido e tem sido usada para descrever um conjunto de coisas abstratas que compõe o preço de artigos de luxo. Ou seja, abrange um conjunto de sensações que você adquire ao comprar um determinado item. 
Exemplifica o artigo: quem compra uma Mont Blanc está pagando por elegância, designer, pelo sentimento de se aproximar do estilo de vida vinculado à marca.

O cerne da questão do artigo é: até que ponto o termo pode ser apropriado por bens de consumo não ligados ao luxo? O tema já virou meme nas redes sociais com o famoso chef Gordon Ramsey ( britânico, astro de um  reality show chamado "Kitchen Nightmares". Aliás,Chef Ramsey - preciso, exigente, duro, o verdadeiro pesadelo das cozinhas - acabou de ser multado pela vigilância sanitária. Ao que parece o marketing não foi capaz de espantar algumas baratas de um dos seus restaurantes.) munido de um raio capaz de tornar qualquer quitute uma verdadeira experiência para o paladar. 
E as palavras pesam. 
Pesam tanto que aparecem logo no preço.

Virou paródia. 
Mas, é preciso levar em conta que o "luxo estilhaçou-se", como bem coloca Lipovetsky em trecho de seu livro " O Luxo eterno".
Segundo ele, o aumento de marcas de luxo e o maior acesso à essas marcas ( bem como as falsificações, diga-se de passagem) mudou consideravelmente a percepção das massas. O individualismo e o consumo são celebrados e todos tem direito ao "supérfluo". 
"É uma nova cultura de luxo que cresce sob os nossos olhos." 

A publicidade acabou se apropriando e refletindo o processo. 

 Resta-nos dizer que: "experienciar", portanto, é direito de todos.

( Ah, sim: experienciar - vocábulo originário da mistura de experimentar e vivenciar. Tomei a ousadia de aumentar o leque de neologismos da publicidade brasileira.)


FONTES: 

2014, o Ano da experiência por Emiliano Urbin in Revista O Globo, dezembro de 2014
LIPOVETSKY, Giles. O Luxo Eterno - da idade do sagrado ao tempo das marcas. São paulo: Companhia das Letras,2005. ( Trecho encontrado em matéria presente no site Jornal do Commercio: A cultura do consumo e do Luxo por Gilles Lipovetsky.)